
Será que me viu? Deu uma olhada pra cá e desviou o olho, mas segue caminhando na minha direção, tomara que não tenha visto. !Isso! não me viu, graças ao gentil cavalheiro que se interpôs no justo momento que cruzamos, tudo bem que eu me escondi um pouco também e olhei pro outro lado.
Lugares públicos, vidas também.
Se bem que eu não via o Alexandre há tanto tempo, e mesmo assim não quis falar com ele quando cruzamos, mas isso não é culpa minha, culpa do clichê e da ladainha imposta. [Oi! Quanto tempo! Tudo bem? O que tem feito?] e depois o silêncio e a falta de assunto [bom te ver, vamos marcar de fazer alguma coisa, vamos marcar mesmo, te ligo], pula essa parte, mesmo que eu queira saber se ele está bem.
Admiro aqueles que vêm me cumprimentam, me dão um sorriso sincero, um tapinha nas costas ou um beijo e se vão, nós sabemos que não temos nada de importante pra falar um com o outro, por que eu perderia tempo e gastaria palavras? Só por falar, não obrigado.
Ai vem a Ju, e agora?! Já me viu e ta rindo na minha direção se esconder, não dá mais. Tenho 5 segundo, e... o celular vibrou, claro. “Atendo”, finjo que falo qualquer coisa, dou um sorriso para a Ju ela me devolve com aquela cara de quem quer falar comigo, ela fala pra caralho, eu sigo meu caminho. Ela já ficou pra trás, já posso colocar o celular no bolso.
Putz onde está o pessoal, esse bloco está aonde? Andar por onde você foi criado tem disso; falar com um monte de gente, ainda mais se você conhece pelo menos uma pessoa por rua do seu bairro, e consequentemente os amigos dos amigos. Vou fazer uma camisa, “só um sorriso já basta, obrigado”.
Agora o celular realmente está tocando:
-Oi! Onde você ta!? Eu também to aqui, Já te vi!
Finalmente, encontrei àqueles que vim encontrar, falar o que realmente temos pra falar.
Devidos cumprimentos, sinceros, amigos, e falamos por muito tempo, eu mais dois, idéias, projetos, música, carnaval, algumas cervejas, eu não, hoje não to bebendo, por quê? Porque não to afim, eu sou assim.
Já são 1:34, e 24ºC, ao menos é isso que ta escrito no relógio de rua na minha frente, o telefone de um deles tocou:
-Alô, oi, to perto do relógio, quase em frente ao hotel. Vem pra cá!
-Quem era?
-Um pessoal conhecido meu, tão chegando aqui! Pessoal maneiro.
-Ok
Prefiro ficar sem pensar em como vai ser, pra não dizer que agourei nada. Tem um grupo olhando pra cá, acho que são eles, sim, são.
Chegaram, nos cumprimentaram, três garotas e um cara, todos muito bonitos. Meu amigo começa alguma conversa com eles, o outro amigo tenta se integrar, olhando pra cara de todos com atenção.
Não, hoje não é meu dia social, com ninguém. Dou as costas e vou embora mesmo, mais uma série de cumprimentos não vai me ajudar muito agora. Caminho de volta pra casa, quero chegar, escutar uma música, um jazz ou um choro cairia bem agora, vozes, são tudo o que eu não quero, é difícil pras pessoas acostumadas a muita informação, sempre um som, uma imagem, entenderem o que eu quero, eles repugnam isso, colocam música pra tudo, a TV sempre está ligada, falam no telefone ou querem encontrar alguém pra conversar. Hoje eu estou no pólo oposto a esse.
To na minha rua, finalmente, deserta. Já vejo minha portaria e como de costume olho pra minha janela, não sei por que, é costume. Quando abaixo a cabeça e olho para frente, a vejo sorrindo, minha vizinha, linda, vindo na minha direção, costumávamos a sair, não a vejo faz muito. Ela me cumprimenta e começa a falar, não sei o que está acontecendo, mas eu não entendo UMA palavra do que ela diz, apenas sinalizo alguns sins com a cabeça e vejo a linda boca mexendo sem parar. E agora? Se ela me fizer alguma pergunta complexa além de um simples sim e não?! Acho que meu sistema imunológico está funcionando muito bem, bloqueando o que eu não queria hoje, mas não era pra ser tão bem assim, eu poderia começar a falar, e assim eu viraria o foco pra mim e depois me despediria e ela não ia notar como eu estou, não, deixa ela continuar, vamos ver no que dá, ao menos até agora não vi nenhuma cara de pergunta.
ao som de
Chet Baker - Line for Lyons